OS SAMBAQUIANOS

 

Eu costumo viajar pela América Latina, e me fascino, em certos países, com a riqueza arqueológica que por aí existe. Por exemplo: somente no Peru existiram 38 civilizações pré-incaicas, civilizações que deixaram cidades, cemitérios, artesanato, etc. Houve mais ou menos outro tanto de civilizações antigas e adiantadas no Equador, na Colômbia, etc. Esses países tem seus soberbos museus de arqueologia e de antropologia, além dos sítios arqueológicos que a gente pode  visitar, e me encantam. E nós, no Brasil? Você já viu um Museu de Arqueologia no Brasil?

Como eu nunca tinha visto, achava que nada tinha acontecido no passado do Brasil. Costumava afirmar, inclusive, que o índio brasileiro se limitara a caçar, a pescar e a tomar banho de rio, não deixando nem uma ruinazinha  do seu passado para que pudéssemos visitar. Daí, neste ano (1997), no curso de História que estou fazendo, estudei um pouco de Arqueologia, e estou até agora de queixo caído.

Para quem vive próximo do nosso litoral, é comum conhecer ou saber que existem Sambaquis por aí. O que é um Sambaqui? É um amontoado de cascas de conchas e de ostras, medindo até 30 metros de  altura, e, algumas vezes, com vários quilômetros de extensão. Alguém viveu no nosso litoral e fez os Sambaquis, e nele enterrou os seus mortos, algum dia. Há muitos corpos enterrados nos Sambaquis, e eu, quando adolescente, cheguei a ver dois esqueletos desenterrados de um Sambaqui, com todos os seus ossos e suas arcadas dentárias, e prestei atenção em como os dentes daqueles antigos habitantes de Santa Catarina estavam desgastados pela mastigação.

Daí vem outra pergunta: quem fez os Sambaquis? Quase cem por cento das pessoas respondem: “Foram os Índios!”

Então vem a minha surpresa, ao estudar um pouquinho da nossa Arqueologia: quem fez os Sambaquis não foram os Índios, nem foram os antepassados dos Índios. Quem viveu pelo nosso litoral, desde o Estado do Espírito Santo até o Uruguai, há 6.000 anos atrás, foi um outro povo que aqui viveu antes dos Índios. Os Índios chegaram por aqui há uns 2.500 anos atrás e, provavelmente, por algum tempo conviveram com os Sambaquianos, e talvez até tenham havido casamentos entre os dois povos, mas os Sambaquianos não eram os Índios, e um dia foram-se embora, não se sabe para onde.

Os Sambaquianos tinham coisas bem adiantadas, como a sua indústria lítica. Devem ter sido adiantados em outras coisas, mas o que fizeram em madeira, em palha, etc., os últimos 6.000 anos encarregaram-se de fazer desaparecer. As coisas em pedra, porém, ficaram, e são impressionantes.

Em Joinville(SC), há o Museu do Sambaqui. Estive lá  vendo ao vivo o que tinha visto em slides no meu curso de História, e estou boba até hoje. Aqueles caras lá do passado, lá de 6.000 anos atrás, não se limitavam a fazer artesanato: eram verdadeiros artistas, com conhecimentos profundos da natureza e da proporção das coisas, e as peças que deles conhecemos, hoje, são mais que um encanto! Elas estão lá no Museu do Sambaqui, e a gente quase não acredita quando as vê: porquinhos-do-mato, duas rolinhas transando, peixes e outros animais, além de instrumentos e objetos para o uso diário, de um equilíbrio estético e uma proporcionalidade ímpares, de  dura pedra perfeitamente polida, quase com o aspecto de vidro.

Fascinou-me sobretudo uma baleiazinha, linda, simpática, com olhinhos, boquinha quase sorridente, barbatanas e tudo o mais, uma verdadeira peça de artista, feita há 6.000 anos atrás à beira do nosso mar, por gente que tinha pouquíssimos recursos. A baleiazinha é tão perfeita e polida que parece um moderno brinquedo de plástico – é uma comparação grosseira para uma obra de arte, mas que pode dar a medida do avanço tecnológico das gentes antigas que aqui viveram.

E eu que pensava que não tinha acontecido nada no passado do Brasil e de Santa Catarina! Estudar esse pouquinho de Arqueologia deu-me toda uma nova visão do que desconhecemos, e fez com que eu deixasse de ter inveja dos países andinos, com seus ricos Museus Arqueológicos!

Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR