O FASCÍNIO PELO PODER

Ele existe e é necessário, pois está presente em todas as relações e instâncias da vida e da sociedade.  Começando pela família, a célula básica da sociedade.

Não é algo ruim sentir atração pelo poder. O que pode se tornar ruim é a  forma como este poder é exercido nas áreas sociais, econômicas, políticas, familiares,  religiosas e em qualquer entidade. Eu mudaria a Constituição, para que todos tomassem consciência. Em vez de “Os três Poderes” colocaria “Os Três Serviços da República Federativa do Brasil”.

Todas as pessoas podem e até devem se sentir atraídas pelo poder, desde que tenham como escopo o serviço e, ainda, que sempre seja debatida a melhor forma de servir. Caso contrário, o poder corre o risco de se tornar imposição, autoritarismo, tirania, despotismo e arrogância. O poder exercido desta forma é classificado pela psicologia como patológico, ou seja, a pessoa que age assim se auto-revela  insegura e fraca. São estas as pessoas que se sentem donas da verdade e da melhor forma de administrá-la. Aqui começam os sérios problemas na forma de exercer o poder, pois ninguém é perfeito. Já dizia o cantor Caetano Veloso: “Olhando de perto ninguém é normal”; e um amigo sociólogo completa: “Olhando de longe é pior ainda”. Resumindo, como diz o ditado popular: “Todos temos telhado de vidro”. Portanto, vamos com calma, senhores e senhoras.

Creio que a melhor forma de solucionar o problema em torno do poder é exercê-lo de forma democrática e participativa. Porém, no Brasil, o artigo 14 da Constituição ainda não foi regulamentado, para que o povo possa exercer seu poder de cidadania através de plebiscitos e referendos, a respeito de matérias importantes para vida da sociedade. Há que se continuar a luta. Todavia, o silêncio ainda não foi quebrado, pois isso convém à maioria da classe política brasileira. Poder pelo poder corrompe…

Existe um chamado bíblico muito forte a este respeito, ou seja, para os que exercem o poder buscando o proveito próprio: “Pensa no teu fim e converte-te”.

Há  uma lenda em torno de Alexandre Magno. Diz ela que, vendo ele se aproximar sua morte,  convocou seus generais e manifestou seus três últimos desejos: 1) Que seu caixão fosse transportado pelos médicos; 2) Que seus tesouros fossem espalhados no caminho, até o seu túmulo; 3)Que suas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos. Perguntaram-lhe a razão disto, e ele explicou: – “Quero que os mais eminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles não têm poder perante a morte. Quero que o chão seja coberto com meus tesouros conquistados para que as pessoas possam ver que os bens materiais conquistados aqui permanecem. Que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas vejam que de mãos vazias viemos a este mundo, e de mãos vazias partiremos dele”.

Lamentavelmente, há mais de dois milênios, Alexandre não imitou Pepe Mujica, atual presidente do Uruguai, considerado o chefe de Estado mais pobre do mundo. Alexandre mandou espalhar seus tesouros por onde seu caixão iria passar. Pepe Mujica é um homem prático, se diz ateu, mas vive a partilha, a simplicidade e a fraternidade solidária, vivida e pregada pelo Mestre Jesus de Nazaré. Não esperou a morte, mas  do seu salário de 12 mil e 500 dólares, ele só fica com mil e 250 dólares. Os 90 por cento são entregues a ONGs encarregadas de construções de casas populares para os pobres. Diz que fica com o suficiente, pois tem gente que vive com menos ainda em seu país. Ele mora numa casa modesta, numa pequena fazenda de sua esposa, e dirige um velho fusca, que vale mil dólares.

 Nas reuniões dos dirigentes dos países latinos americanos é sempre ouvido com fervor. Porém, é necessário que todos o imitem, só assim sobrará verbas para tantas políticas públicas, para pagar melhor aos profissionais da saúde e da educação e a todos os trabalhadores.  Para equipar melhor os centros de saúde e escolas… É o poder transformado em serviço à vida com dignidade para todos(as).

Paulo Reims

AS VELHAS PÁSCOAS

Fico entristecida quando vejo o que a sociedade de consumo fez com a Páscoa: para a maioria das pessoas. Hoje, Páscoa significa ir aos supermercados disputar ovos de chocolate anunciados como os mais baratos do Brasil, muitas vezes levando junto as crianças para que elas próprias escolham sua marca preferida. A magia e o encanto da Páscoa se dissiparam paulatinamente com o avanço do progresso, e eu tenho uma saudade imensa daquelas maravilhosas Páscoas da minha infância, tanta saudade que vou contar como eram.

Na verdade, a Páscoa começava muitos meses antes, quanto, em cada casa, as mães quebravam cuidadosamente só a pontinha de cada ovo usado, para guardar as casquinhas vazias. Elas eram lavadas, secas e armazenadas, e só de olhá-las já se criava uma expectativa a respeito da Páscoa.

Ainda antes da Semana Santa já se começava a preparar a Páscoa. Cada casquinha era decorada, e as formas eram muitas. Podia-se pintá-las com tinta a óleo ou outras tintas apropriadas que existiam, que lhes davam lindas cores vivas, ou podia-se decorá-las com tiras e tiras de papel de seda ou crepom picotados, que as deixavam com uma cara de gostosas! Essas eram as formas mais fáceis de decorar casquinhas – havia outras, é claro, mais sofisticadas, e resquícios delas ainda aparecem nas lojas especializadas nesta época do ano. Paralelamente à confecção das casquinhas, se faziam as cestas, usando papelão e muito papel colorido picotado e encrespado, serviço para noites e noites à volta do rádio. Algumas crianças tinham a felicidade de possuir cestinhas de vime, que eram reaproveitadas a cada ano.

Era necessário, também, preparar o amendoim, que a gente comprava com casca, descascava, torrava, tirava as pelezinhas, para depois a mãe da gente confeitá-lo com calda de açúcar, ato que por si só já gerava uma grande magia, com a criançada toda em torno do fogão prendendo a respiração para ver se a calda “dava ponto”. Depois era hora de encher as casquinhas, e fechá-las com estrelinhas de papel coladas com cola de trigo. De noite, misteriosamente, tudo sumia: o Coelho levava as guloseimas e as cestinhas embora para sua toca.

Faziam-se, também, os ovos cozidos pascoais. Colava-se folhinhas de avenca, de rosa, etc (com clara de ovo) em ovos frescos, os quais eram amarrados dentro de trouxinhas de pano e depois cozidos em águas com plantas que lhes davam cor. Marcela, casca seca de cebola e capim melado produziam ovos de três tons de amarelo; a batata de cebolinha vermelha produzia ovos vermelhos. Depois do cozimento, tirava-se a trouxinha e as folhas, e se obtinha belos ovos decorados para serem comidos no café da manhã de Páscoa.

Ah! A manhã de Páscoa! Na véspera, as crianças tinham feito seus ninhos, com palha ou capim, ninhos enfeitados com pétalas de flores e papel colorido picado, escondido no jardim. O despertar na manhã de Páscoa era uma loucura: corria-se para fora de casa ainda de camisola, a procurar o que o Coelho deixara. No ninho sempre havia alguma coisa, mas havia coisas também, escondidas em todos os cantos possíveis. Acontecia de a cesta da gente estar escondida dentro do galinheiro (todos tinham galinheiros nessa época), e aí havia outra surpresa: as galinhas brancas estavam azuis, ou verdes, resultado de paciente trabalho dos pais, durante a noite, que lhes pintara as penas com anilina. Nós não tínhamos vacas, mas nas casas onde as havia, as partes brancas do pêlo delas também eram coloridas com anilina, e tudo aquilo criava um encanto muito grande nas nossas mentes infantis. Era um ser maravilhoso, esse Coelho!

Nas manhãs já frias de Abril, voltávamos para casa com as cestas cheias de casquinhas e alguns espetaculares chocolates (chocolate, na época em que eu cresci, só era comido no Natal e na Páscoa), que eram contados e divididos igualmente entre todas as crianças. Ia-se à Igreja, a seguir, à missa das nove, e o ar fino e já frio de Abril estava totalmente impregnado de uma profunda magia, e a gente não via a hora de voltar para casa para começar a comer as guloseimas! Primos vinham brincar, nestas tardes de um tempo em que a Páscoa era tão maravilhosa, e a gente criava cenários fantásticos nos gramados verdes, onde os coelhinhos de chocolates e os ovos eram personagens.

Ah! Que pena que o espaço está acabando! Quanto, quanto ainda queira falar sobre as antigas Páscoas! Mas acho que já deu para dar uma idéia de que elas eram muito diferentes da Páscoa que a sociedade de consumo criou: qual é a graça de levar as crianças aos supermercados para escolher seu tipo de ovo preferido? Onde ficou a magia da espera e do Coelho?

 

Blumenau, 24 de Março de 1996

Urda Alice Kluege

Escritora

UM HOMEM CHAMADO JORGE AMADO

10 de agosto de 2012: um século do nascimento desse brasileiro extraordinário, presença constante nas vitrines de todo o mundo e nos corações de tantas pessoas de tantas nacionalidade. Tive o prazer de conviver com ele na altura em que tinha 80 anos. Acho que devo homenageá-lo publicando novamente o texto que escrevi naquela altura.

Aí com seus orixás, onde quer que esteja, muitas saudades, meu querido baiano nº  1!

 

(Texto escrito originalmente para publicação num jornal português. Deverá ter uma observação a esse respeito, ao ser publicado, para que sua leitura fique clara.)

 

UM HOMEM CHAMADO JORGE AMADO

Eu provenho de uma família humilde do Sul do Brasil. Minha região é de colonização alemã, e meu Estado, o de Santa Catarina, caracteriza-se por ser formado de muitas “ilhas culturais”. A região alemã onde me criei é ladeada de um lado por uma região de colonização italiana; do outro, pelos descendentes dos açorianos que para cá vieram no século XVIII. Meus pais eram pequenos comerciantes sem muitas luzes, e tenho certeza de que nunca passou pela cabeça deles que uma das filhas se tornaria uma escritora, e que um dia iria conhecer pessoalmente um monstro sagrado como Jorge Amado.

Criei-me lendo muito, muito e muito, e lá pelos 12 anos deparei-me a primeira vez com um livro de Jorge Amado. Foi ler e gostar – nosso grande escritor fascina ao primeiro contacto. E passei a minha vida a procurar os livros dele, a viver através dos livros uma Bahia fantástica e maravilhosa, e o tempo passou, e um dia já tinha mais de trinta anos e fui conhecer a Bahia.

O Brasil é muito grande. Da minha casa, em Blumenau/SC, até Salvador/BA, são 3.000 km e 48 horas de ônibus, mas tudo correu bem, e num final de tarde cheguei a Salvador. Deveria estar moída pelos dois dias e duas noites no ônibus, mas a fascinação que pressentia na Bahia de Jorge Amado me tirou todo o cansaço: foi só tomar um banho e fui para a rua, a descobrir o que havia de verdade no que havia lido. E foi como se conhecesse a cidade, foi bem como se entrasse num livro de Jorge Amado!

A Bahia é um lugar mágico! Conheço, hoje, 16 países e 16 estados brasileiros, e continuo afirmando que a Bahia é o melhor lugar do mundo! A Bahia mistura tudo: Arte e a História, o Brasil e a África, a beleza e o encanto, as religiões e a magia. Totalmente encantada com a Bahia, nos seis anos seguintes voltei lá sete vezes, enfrentando, a cada vez, 48 horas de ônibus. Só para que aquilatem o quanto a Bahia é maravilhosa, nesse ínterim fui passar um mês em Paris. Todos nós, brasileiros, sentimos uma grande fascinação pela Europa, e eu achei que passar um mês em Paris seria a coisa mais maravilhosa da minha vida. Só que, depois que estava uns quatro ou cinco dias em Paris, tudo o que eu pensava era “O que é que eu estou fazendo aqui? Por que é que não fui para a Bahia?”

Encantadora Bahia, só ela poderia produzir um escritor como Jorge Amado! Eu gostaria de falar muito e muito mais sobre a Bahia, mas vamos voltar a Jorge Amado antes que o espaço acabe.

 

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Já havia lido cerca de 30 livros de Jorge Amado, e alguns de Zélia Gattai, sua mulher, quando, em 1994, li “Navegação de Cabotagem”, as memórias do nosso grande Mestre. Até aí eu pouco sabia sobre a sua figura humana, que se me afigurava distante, inatingível, inacessível para os comuns dos mortais, e tive a maior surpresa ao descobrir, em “Navegação de Cabotagem”, a existência de um Jorge Amado humano, brincalhão, pícaro, cheio de amigos, e aquilo me encorajou a lhe escrever uma carta, falando do quanto gostara do livro e do quanto gostava da Bahia. E claro que não esperava resposta de uma pessoa tão ocupada, e quase morri do coração quando, uns dez dias depois, recebi uma resposta dele. Foi assim que começou nosso contacto, e quando ele soube que eu iria à Bahia em novembro daquele ano, mandou-me o telefone para que o procurasse.

Tânia Rodrigues e eu prendíamos a respiração quando, já em Salvador, ligamos do hotel para a casa dele. Imaginávamos ser atendidas por uma secretária, e quase morremos do coração quando ele próprio atendeu ao telefone e ajeitou a sua agenda mental para achar um espaço para nós. Combinamos um encontro para a tarde, na Academia de Letras da Bahia, onde ele tinha um compromisso.

E claro que vestimos roupas novas e nos enchemos de perfume para o grande encontro. Quinze minutos antes da hora marcada já estávamos no lindo prédio da Academia, o coração batendo forte de emoção. Os acadêmicos que foram chegando nos deixaram à vontade, a sala onde estava foi-se enchendo, e, de repente, na maior simplicidade, adentra a ela Jorge Amado em pessoa, perguntando se ali estava uma escritora de Santa Catarina com quem marcara encontro. Vestia-se todo de branco, com roupas leves e confortáveis, e era igualzinho como a gente o via em fotografias ou na televisão. Foi extremamente simpático desde o primeiro momento, e nos convidou para sala contígua, onde poderíamos conversar à vontade.

Nessa ocasião, ele estava com 80 anos, mas sua lucidez e agilidade mental eram surpreendentes. Sentamo-nos a conversar, e como ele gosta de conversar! Ele fala baixinho, a gente tem que chegar bem perto para ouvir bem, e suas histórias são sempre interessantes e bem humoradas. Contou-nos muitas coisas naquela tarde, principalmente sobre sua família. Como todo bom brasileiro, tem uma avó índia (Zélia Gattai conta nos seus livros o quanto a sua sogra era índia, com negros cabelos escorridos), e, como bom brasileiro, também, acha que tem sua parcela de sangue judeu, por parte dos Amados, coisa que nunca conseguiu comprovar. Eu adoro ouvir histórias, e ouvi-las diretamente da boca do nosso maior escritor era algo que estava além dos meus melhores sonhos. Poderia ter ficado o resto da vida ali, mas o tempo urgia e Jorge Amado foi chamado para votar alguma coisa na reunião da Academia. Votou e, gentil, veio nos buscar. Sou acadêmica aqui do meu Estado de Santa Catarina, mas não esperava que ele fizesse o que fez: chamou-me para a mesa, apresentou-me como acadêmica, fez-me honras que me deixaram até acanhada. Foram servidos vinhos e deliciosos quitutes baianos (ah! a comida baiana é única no mundo!), outros acadêmicos me requisitaram, e quando vi, já era hora de ir embora. Fui despedir-me de Jorge Amado, agradecer-lhe por aquele inefável tempo em sua companhia, por aquela oportunidade que julgava única na vida, feliz demais por ter tido o privilégio de, uma vez na vida, ter privado da presença do meu ídolo, certa de que o sonho acabara, mas ele tinha outros planos:

– Amanhã vocês vão até minha casa! – e aquilo era mais do que eu julgara poder esperar na vida.

 

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No dia seguinte, à hora aprazada, Tânia Rodrigues e eu saltamos de um táxi diante da casa de Jorge Amado. Ela se situa no bairro do Rio Vermelho, o primeiro dos bairros na orla marítima de Salvador, e está construída sobre um morro. A parte que dá para a rua está cercada por alto muro, e os meninos da vizinhança picharam esse muro com seus sprays, criando nele todo o tipo de desenhos e de slogans. Há apenas uma porta encravada nesse muro, onde, depois que tocamos a campainha, fomos de imediato atendidas por uma simpática empregada chamada Rose, que já nos esperava. Ela conduziu-nos a uma sala de visitas onde, numa mesa cheia de livros espalhados sobre toalha de crivo, Jorge Amado nos aguardava. Fiquei toda orgulhosa ao ver um livro meu sobre aquela mesa.

Acho que vale a pena contar sobre a casa de Jorge Amado. Ele e Zélia construíram aquela casa faz mais de 30 anos, quando o bairro do Rio Vermelho era ainda pleno subúrbio, e não a região altamente valorizada e urbanizada que é hoje. Estão no topo do morro; lá de cima, tem-se esplêndida vista para o mar e para a baia de Todos os Santos, o que, aqui no Brasil, é coisa muito valorizada. Na época, os dois plantaram à volta da casa muitas e muitas mudas de árvores, e com a facilidade que existe aqui no Brasil de as florestas se desenvolverem, hoje a casa está no meio de uma verdadeira floresta, que, inclusive, tirou a vista do mar.

A casa é ampla e arejada, adequada ao clima baiano, e está rodeada por espaçosas varandas, onde, tive a impressão, é o lugar em que Jorge Amado e Zélia Gattai passam a maior parte do seu tempo. Num dos lados tem uma piscina antiga, sombreada de árvores. Por toda a casa, tanto do lado de dentro quanto nas varandas, prateleiras correm ao longo das paredes, prateleiras pejadas de objetos de arte de todas as partes do mundo, que o casal colecionou durante toda a sua vida. A impressão geral que dá é de frescor, de leveza, de paz, quase como se a casa e sua pequena floresta fossem voar.

Jorge Amado acabara de sair da piscina. Usava bermudas azuis e uma camisa muito florida, desabotoada. Disse-nos para que ficássemos à vontade, e passamos a remexer nos livros que estavam sobre a mesa, quando entrou na sala a luz chamada Zélia.

Eu sabia que, indo à casa de Jorge Amado, acabaria conhecendo Zélia Gattai, e imaginava que ela seria um pano-de-fundo para o que ocorresse lá. E quando ela chegou e trouxe toda a sua luz., bastaram alguns segundos para que ficasse evidente que quem se tornava pano-de-fundo era Jorge Amado.

E impossível conceber-se Jorge Amado sem Zélia Gattai. Há que se ler os cinco livros de memórias e o romance que ela escreveu, para se ter uma idéia de quem é Zélia. Mas há que se conhecê-la pessoalmente para se aquilatar o real valor daquela mulher.

Zélia é a mais meiga, mais linda, mais forte, mais intensa, vibrante e suave das mulheres. Conhecê-la foi uma das experiências mais gratificantes da minha vida – que dizer da sorte de Jorge Amado, que priva da sua presença há mais de cinqüenta anos? A imensa energia de Zélia nos envolveu, e, quando dei por mim, estávamos todos sentados numa das varandas, com Rose,a empregada simpática, a nos servir sorvetes.

Eles são extremamente simples. Jorge Amado estava sentado em confortável cadeira de lona, e Zélia acomodara-se em lindíssima cadeira-de-balanço, antiga peça muito bem trabalhada em madeira negra que, ela explicou, é a última peça que resta das que seu pai trouxe da Itália quando emigrou para o Brasil. As cadeiras estavam próximas, e era evidente a compreensão e o carinho com que os dois se tratam. Começamos a conversar, e eles nem se davam conta dos gestos de ternura que faziam um no outro: Jorge Amado acariciava com leveza a nuca de Zélia, num lento e suave movimento que dura há mais de cinqüenta anos; Zélia, por sua vez, acariciava com a mesma leveza a perna que ele cruzara ao sentar-se, e aquilo era uma coisa tão natural entre os dois, refletia uma intimidade e um entendimento tão grandes, que senti a garganta apertada de emoção.

A conversa correu leve e fácil. Os dois, agora, nos contavam de passagens de suas vidas e de suas famílias (naquele dia, seu filho João Jorge fazia 47 anos, e eles tinham comemorado com um almoço). Fomos interrompidos pelo telefone: um amigo de Portugal estava a ligar, e eles ficaram passando o telefone um para o outro, e conversando animadamente com o português como se ele estivesse ali junto. Depois, nossa conversa continuou, mas aí Jorge Amado lembrou-se de que tinha um recado para seu motorista, e chamou-o. Um simpático baiano apresentou-se, e recebeu a incumbência de ir buscar uma caixa de doces na casa de alguém que voltara de viagem ao Ceará.

– Vá depressa! – brincou ele. – Fulano é muito guloso, se deixar os doces lá por muito tempo, ele é capaz de comer todos!

Simples, brincalhão, de repente ele se lembrou que não nos oferecera uma bebida. Atrás de nós havia uma porta com um bar evidentemente super-sortido, e ele liberou:

– Vão, vão ali, peguem a bebida que vocês gostam! Não se acanhem, fiquem à vontade!

Não me servi, havia acabado de tomar o sorvete e não queria perder nenhum momento do que estava acontecendo; aí Jorge Amado resolveu nos mostrar a casa.

Com a simplicidade de um velho tio, ele nos levou por toda a sua casa. Conhecemos seu computador, especialmente adaptado para ele, que está com um sério problema de visão, o primeiro computador da sua vida, pois, enquanto enxergou bem, sempre usou a máquina de escrever. Ele quis nos mostrar como funcionava o computador, mas atrapalhou-se com os comandos – era evidente a sua saudade da velha máquina de escrever.

Andamos por toda a casa, até o quarto do casal nos mostraram, mas, sem dúvida, o mais impressionante de tudo, é uma biblioteca que existe na casa. E nessa peça que trabalha uma moça simpaticíssima, que é secretária do casal, chamada Rosani, e é ela que mantém organizados e encapados os livros que lá estão.

A sala é ampla e a biblioteca é bastante grande, e fiquei de boca aberta quando soube que tipo de livros havia ali. Naquelas prateleiras estava um exemplar de cada edição de cada livro de Jorge Amado em cada língua em que eles haviam sido publicados, e o meu coração brasileiro bateu forte ao ver o feito que um compatriota conseguira. Penso que, provavelmente, nenhum escritor vivo, no mundo, possa ter uma biblioteca como aquela. Os livros estão impressos em mais de 50 línguas e, se considerarmos que há línguas que são faladas numa porção de países, como o inglês e o espanhol, nossa cabeça dá um nó na hora de fazer as contas. Jorge Amado tirou da prateleira um livro ao acaso e o abriu: estava escrito em caracteres estranhíssimos, que com certeza não era o chinês, nem o japonês, nem o árabe – tratava-se, de certo, de alguma escrita asiática, e ele riu e fez um comentário sobre como se saber que tipo de tradução tinha sido feita do seu livro naquela língua da qual não entendíamos patavina.

Andamos, depois, ao redor da casa, vimos a piscina, embrenhamo-nos pela floresta até avistar o grande mar-oceano lá embaixo, e, coisa curiosa, por toda a parte havia sapos. Não eram sapos vivos, mas uma incrível coleção de sapos de pedra, de acrílico, de cerâmica, de todos os materiais, dispostos pelas calçadas e ao redor da piscina, presos ao chão com cimento, uma imensa coleção de sapos de todos os formatos e tamanhos como nunca julgara existir. Eram sapos de todas as partes do mundo, colecionados durante as muitas viagens do casal.

E, no meio da floresta, uma escultura de Exu, em metal negro, Exu, o orixá brincalhão, trazido há cinco séculos da África para o Brasil, e hoje um dos orixás importantes do candomblé brasileiro. Com muita graça, Zélia Gattai nos contou como explicara para o netinho a personalidade de Exu, recriou para nós um episódio familiar daqueles que sempre acontecem entre avós e netinhos, fez-nos crer que ela era uma avó quase igualzinha à qualquer avó.

Voltamos às varandas, passamos de novo pela escultura dos cachorros com que iniciei esta matéria, ele bateu de novo no cachorro que voltou a ser impulsionado pela mola que o colocou a furunfar, Zélia brigou com ele de novo, a simplicidade deles era uma coisa tão marcante que a gente se esquecia de que se tratavam de dois monstros sagrados. Zélia nos mostrou seus objetos de arte preferidos, e nunca me esqueço de uns vasinhos em vidro azul, que eles trouxeram do Irã; são vasinhos que as mulheres iranianas usam para recolher as lágrimas de saudade, quando seus maridos estão viajando. Ela nos falou, também, do seu primeiro romance, que ia acabar dentro de alguns dias, e eu a admirei ainda mais aos 78 anos, e a começar uma carreira de romancista!

Assim, conversando aqui e ali, passaram-se umas duas horas, e chegou um médico com o qual ambos faziam fisioterapia. Era hora de irmos. Fomos todos, de novo, para a mesa da sala, e Tânia e eu recebemos diversos livros autografados pelos dois. Enquanto eles escreviam suas dedicatórias nos livros, chegou de volta o motorista que fora buscar os doces. Era uma caixinha de madeira cheia de doces de caju, especialidade do Ceará, e, não perdendo a oportunidade de fazer uma brincadeira, Jorge Amado explicou ao médico:

– Sicrano me mandou três caixas de doces do Ceará, mas Fulano, que as trouxe, muito guloso, já comeu duas. Foi sorte termos salvado esta!

Ríamos enquanto ele abria a caixa. Fez questão que provássemos os doces de caju, comemos todos em conjunto, ele a elogiar o caju cearense, e o ambiente era alegre e descontraído como a casa da gente em dia de festa. Doía um monte, mas em seguida tínhamos que ir embora. Os sonhos não duram para sempre, e o nosso estava se findando. Efusivamente, Jorge Amado e Zélia Gattai se despediram de nós, para se entregarem às mãos do fisioterapeuta. E a gente foi embora. Mas nunca poderei esquecer.

 

Blumenau, 02 de março de 1996.

Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

DESMISTIFICANDO O CHÁ DE COCA

Em 1993, minha amiga Sônia e eu fizemos os preparativos para uma viagem à Bolívia e ao Peru no meio de muita farra: voltaríamos casadas com traficantes de cocaína, voltaríamos viciadas em chá de coca. É claro que não queríamos casar e nem nos tornarmos viciadas, mas nossos amigos riam muito dos nossos planos.

Viajamos, enfim. A primeira cidade boliviana que conhecemos foi Santa Cruz de La Sierra, ainda na parte baixa da Bolívia, antes de se subir os Andes. Santa Cruz nos surpreendeu por ser uma cidade grande e bonita, plana e planejada, cujo centro, com uma antiga catedral espanhola, linda praça e casario espanhol, é cercado por moderna cidade de prédios modernos, agradável e aconchegante.

Chegamos de manhã à Santa Cruz, e gastamos o dia conhecendo a linda cidade (eu esperava uma cidadezinha de tugúrios, muito feia) e, de tardinha, passamos por um mercadinho, onde havia na vitrine … chá de coca! Há que se lembrar que o chá de coca, na Bolívia, é tão legal e consumido quanto o cafezinho, no Brasil; mas ainda não sabíamos disso, e o chá famoso exercia uma grande atração sobre nós, dava uma idéia de proibido, de pecado, e quem não gosta de experimentar o proibido? Olhando para os lados, para ver se ninguém nos via, Sônia e eu entramos no mercadinho e compramos uma caixa de chá, com os mesmos cuidados que as pessoas têm quando compram pornografia.

A caixinha de chá que compramos era de famosa marca alemã, tinha linda embalagem envolta em papel celofane, e o chá vinha em saquinhos, como qualquer chá respeitável. Escondemos a caixa na bolsa e voltamos correndo para o hotel, onde mandamos preparar duas chávenas. Quando nos entregaram as xícaras, em nosso apartamento, Sônia e eu nos deitamos para tomá-lo, para que quando acontecesse o “barato”, estivéssemos deitadas e nada nos acontecesse. Até hoje eu morro de rir ao lembrar como ficamos as duas deitadas, após tomar o chá, esperando o “barato”. Dez minutos depois eu perguntei:

– Sônia … tudo bem aí?

Estava tudo bem, assim como comigo, nada estava acontecendo com ela. Mais dez minutos, e Sônia pergunta:

– Urda … tudo bem?

Era hilariante a cena, nós a esperarmos o “barato” que não veio. Uma hora depois, morrendo de rir, resolvemos voltar aos nossos passeios. O chá de coca não dá barato nenhum.

Só fui entender a verdadeira função do chá de coca depois que subimos os Andes. Naquela altitude de 4.000 m, não sei como se viveria sem ele. O mal-estar da altitude é uma coisa terrível, que não se tem como fugir – mesmo deitada, mesmo dormindo, a altitude nos faz sentir muito mal – mesmo dentro do sono, tem-se a sensação de que se respira agulhas, ou navalhas, e a cabeça está sempre com a sensação que vai explodir. Qualquer pequeno esforço, como o de se subir uma escadinha de cinco degraus, deixa-nos sem forças, derreados, com o coração disparado, e é nessas horas que o chá de coca é bem vindo. Ele nos ajuda um monte a melhorar, dá-nos a sensação de que se vai conseguir sobreviver, é o melhor remédio que existe contra os males da altitude.

No Bolívia, toma-se chá de coca tanto no botequim da esquina, quanto no mais fino restaurante. Os mais refinados garçons do país, quando vêm chegarem turistas derreados, que jogam os braços e as cabeças sobre as mesas e não conseguem nem mais falar, sabem direitinho o que eles precisam. Polidamente, aproximam-se e perguntam :

– Mate de coca?

E a gente dá graças a Deus que o garçom perguntou, que não precisou gastar aquele tiquinho de energia necessário para pedir a infusão que vai devolver um pouco das forças, porque força a altitude tirou toda.

Eu sempre digo que Deus faz as coisas perfeitas, o Diabo é que as estraga depois. Num lugar alto como os Altiplanos andinos, onde é tão difícil viver, Deus colocou a coca e o seu chá terapêutico (o gosto não é bom, mas a gente o acha maravilhoso pelo bem que ele nos faz.). O Diabo, depois, fez com que o homem descobrisse a forma de, com aquelas folhas ingênuas e boas, produzir cocaína.

 

Blumenau, 25 de agosto de 1996.

Urda Alice Klueger

EDÍCULAS

Fui uma leitora voraz desde quando entrei na escola e recebi meu primeiro livro de leitura, que devorei inteirinho no primeiro dia – considerando que fazia algo como uma semana  que a minha mãe me alfabetizara, fazer aquilo era uma coisa que estava além das expectativas dos adultos.

Portanto, fui uma leitora voraz desde a alfabetização, e seria difícil, hoje, fazer a conta de quantos milhares de livros li, o que me deixou ciente de um bastante bom vocabulário de português. Surpreendi-me, faz poucos anos, ao descobrir que havia pessoas que não sabiam o que significavam palavras como “brumas”, ou “rés do chão”, ou “chávena”, por exemplo. Não sei bem o que senti ao fazer tais descobertas: se eu era uma felizarda por haver lido tanto, ou se tinha pena das pessoas que não tinham lido. Acho que senti mais ou menos uma média das duas coisas. Mas houve uma palavra que me escapou, e vou contar a respeito.

Nos anos da minha infância, as pessoas moravam em casas, e lá no fundo das casas normalmente havia um rancho, que era onde se guardava a lenha cortada, se pendurava cachos de banana para amadurecer, onde as crianças brincavam em dias de chuva e que tinha centenas de outras utilidades. Dependendo da casa, era lá que ficava o banheiro e o tanque de lavar roupas. O rancho se chamava rancho se era construído separado da casa – quando tal construção polivalente era anexa a casa, o nome mudava para puxado. Mais tarde veio a televisão e a popularização da palavra “puxadinho”.

Faz poucos dias que andei olhando um lugar na Internet onde se anunciavam casas para vender e/ou alugar. Era um lugar muito bem feito, onde apareciam muitas fotografias das citadas casas, além de descrições da mesma, mais ou menos assim: casa com tantos metros quadrados, com três quartos, dois banheiros, sala em dois ambientes, cozinha com despensa e… edícula! Puxa vida, deveria ser uma coisa muito fascinante uma edícula! Por algum motivo veio-me à cabeça essas mais ou menos sobrelojas que casas chiques têm, e que são conhecidas por mezanino. Bem que gostaria de ter uma casa com uma edícula iluminada por uma janelinha, como certas mansardas que a gente encontra em romances. Colocaria lá meu computador e poderia trabalhar enquanto espionava o funcionamento do fogão, da máquina de lavar roupa… Se fosse perto do mar, então, dominaria o mundo da minha edícula: veria a chegada e a saída dos navios, o vento nordeste das tardes, as marés baixas e as lestadas, a lua cheia prateando tudo… Céus, passei a sonhar que teria uma edícula, até que comecei a me dar conta de que quase todas as casas anunciadas tinham edículas – será que aquilo era mesmo o que estava a imaginar? Havia tanta gente assim, atualmente, fazendo sobrelojas nas suas casas?

Fui a São Google, claro! Era tempo de ver se estava certa no que pensava, já que as enciclopédias e os dicionários, hoje, já não tem mais a mesma importância que tiveram um dia.

Fiquei com a maior cara de tacho! Edícula não era, absolutamente, um mezanino – em português do Brasil, edícula não é nada mais nada menos que o que antes chamávamos de rancho, quiçá de puxado ou puxadinho!

Passei a prestar mais atenção às fotos das casas, então. Nas edículas, hoje, normalmente existem churrasqueiras, o que não muda nada. Era bem num vazio do nosso rancho que o meu pai costumava fazer um braseiro e colocar sua grelha de assar churrasco, quando era dia de festa! “Ora, direis, ouvir estrelas![1]”. Nossos inocentes ranchos, hoje, foram promovidos e tem um nome sofisticado como edícula! Quem diria! O que será que foi que eu não li para não saber tal coisa?

 

Blumenau, 02 de junho de 2012.

Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR



[1] Verso de Olavo Bilac, poeta brasileiro.I

CENTELHAS DE VIDA

 

Era uma vez, lá no Paraíso Terrestre, quando Deus criou Adão e Eva e todos os animais, criou Ele, também, um casal de cachorrinhos. Viviam todos, lá, muito felizes, e se não fosse a preocupação de Eva e Adão de provarem dos frutos da Árvore do Bem e do Mal, a festa lá ainda não teria acabado, e ninguém passaria nenhum tipo de privação neste mundo.

Bem, o fato é que lá, junto com Adão e Eva, havia um casal de cachorrinhos, e que enquanto Eva era tentada pela Serpente, os cachorrinhos, muito naturalmente, tiveram seus primeiros filhotes, que tiveram outros filhotes, que tiveram outros filhotes, até que um dia, milhares de anos depois, nasceram os dois cachorrinhos que vivem na rua do lado da minha casa.

Eu comecei a vê-los no começo deste inverno que está tão frio: dois cachorrinhos amarelos, dos mais legítimos vira-latas, a saírem para a entrada da rua, bem na minha esquina, para ficarem ao sol que chega antes na esquina do que na casa deles. Pequenas centelhas de vida explodindo de inteligência e alegria, eles sabem  exatamente a hora em que o sol chega a um pedaço quadrado de asfalto na saída da rua, e lá vêm, lépidos e alegres, a balançarem seus rabinhos na efusão gratuita de viver, para aproveitarem o calor fraco do sol e se aquecerem.

Como se divertem os dois bichinhos! Eles ainda são cachorrinhos muito novos, mal e mal deixaram de ser bebês, e a idade adulta deve vir só lá pelo verão. Estão naquela fase em que os cachorrinhos gostam de roer os chinelos das pessoas, e onde a alegria é infinita dentro dos corpinhos peludos e inquietos de tanta vida. Naquele quadrado de sol da esquina da minha rua, eles se aquecem com os focinhos erguidos, e brincam, alternadamente, brincam um com o outro tendo a certeza de que a coisa mais importante deste mundo é brincar. Eles conhecem todas as crianças da redondeza, e todas as crianças os conhecem – quando elas passam, cedinho, em direção da escola, eles interrompem suas brincadeiras para fazerem festa às crianças, e acompanham-nas um bom estirão pelas calçadas, até lembrarem-se que têm seu quadrado de sol no mundo, e voltarem à minha esquina.

Conhecem gente grande também: recentemente, quis saber mais sobre eles. Minha amiga Margarida contou-me que se chamam Toco e Bilú, e Margarida é uma mulher séria, tesoureira de um banco, o tipo de pessoa que a gente não pensa que sabe o nome de dois cachorrinhos de nada, duas centelhazinhas de vida que surgiram no começo do inverno num quadrado de sol. Depois que Margarida contou-me até o nome deles é que vi o quanto estão populares em toda a vizinhança.

Sabedora, agora, dos seus nomes, ontem de manhã fui lá falar com eles. O dia estava nublado, e o pedaço de sol não tinha aparecido na esquina. Os cachorrinhos, porém, sabiam perfeitamente onde ele iria surgir, se surgisse, estavam lá sentados,com cara de aborrecidos pela falta daquele amigo Sol que os tem aquecido desde que se lembram, na sua curta vida. Eles ainda não me conheciam – sempre os observo de longe, de dentro da garagem – e se mostraram indiferentes até que chamei:

– Toco!

Na hora descobri quem era Toco, pois ele veio pular em mim arrebentando de alegria, e foi só chamar “Bilú”, para que Bilú também entrasse num paroxismo de prazer e de pulos, ambos inteiramente cônscios da sua identidade neste mundo. Nasceram faz pouco tempo: da vida só conhecem o quadrado de sol e as crianças que passam, mas sabem muito bem como cada um se chama, e como ficam gratuitamente felizes quando um adulto se digna dar-lhe o pequeno nome que é quase tudo o que possuem!

Eles pularam e me lamberam até que eu tive de ir-me. Pelo retrovisor do carro, fiquei vendo como, depois da alegria de terem sido reconhecidos por um adulto, esqueceram-se de que o quadrado de sol não tinha vindo, naquele dia, e passaram a brincar com a mesma alegria de quando se sentiam aquecidos!

Se Adão e Eva não tivessem acabado comendo do fruto da Árvore do Bem e do Mal, cachorrinhos como Toco e Bilú nunca sentiriam frio, e nunca precisariam ficar brincando num quadrado de sol na esquina de uma rua, e não haveria na minha vida a luz das suas pequenas centelhas de vida. Até que Adão e Eva não erraram de todo!

Blumenau, 04 de agosto de 1996.

Urda Alice Klueger

A MINA DE CHUQUICAMATA – Chile

 

    

 A MINA DE CHUQUICAMATA Chile

(Excertos do livro “Viagem ao Umbigo do Mundo”, publicado em 2006)                                  

 

Jaka me avisara sobre a grande mina de cobre pela qual passaríamos durante a tarde, e em poucas horas a atingíamos: nem na África do Sul, que é um país coalhado de minas ao longo das rodovias, vira eu coisa assim!

A mina de Chuquicamata estendia-se pela beira da rodovia por quilômetros e quilômetros, e o cobre de que era formada tinha a profundidade de 600 metros, sem contar que também se erguia em altas montanhas. Estava sendo explorada há milhares de anos, claro – de onde tiravam o cobre dos seus objetos os antigos moradores de São Pedro de Atacama? Com certeza, porém,  no passado, sua exploração fora uma coisa artesanal – nos modernos tempos do Capitalismo, porém, desenvolveram-se máquinas monstruosas e outras coisas para sua exploração. Tratores que pareciam lunares, com seus pneus gigantescos, entravam em buracos imensos e traziam à superfície enormes quantidades de minério, que era despejado dentro de vagões de trem ali alinhados como se se tratasse de um trenzinho de brinquedo. Tudo ali era cobre; bastava-se que se escavasse o chão para se juntar o minério em quantidades incomensuráveis, pois incomensuráveis eram as reservas.

Há que se lembrar que se estava em pleno Deserto do Atacama, que naquela região não tinha o menor sinal de fertilidade – depois que saíramos de São Pedro de Atacama, onde havia alguma coisa de verde, por se tratar de um oásis, nada mais se via de vivo, nem plantas, nem animais, nem mesmo um cacto, um mosquito – era tudo pura aridez colorida. Uma cidade inteira de prédios de vidros hermeticamente fechados – Calama –  fora construída ali junto da mina, decerto para abrigar os mineiros que estavam tão distantes de qualquer outro lugar, e havia a mina, os grandes tratores, o trem, e pequenas formiguinhas que eram os seres humanos, diante da escala imensa das outras coisas – e só. Não sei como aqueles seres humanos conseguiam sobreviver no meio daquela aridez colorida. Tenho comigo que revi aquela mina poucos meses depois  no cinema, no filme “Viagens de Motocicleta”, mas não tenho certeza. Diante do contexto do filme, porém, não há por que não ser a mesma mina. Penso que dificilmente no mundo haverá outra em condições tão inóspitas.

Também há que se acrescentar aqui que aquela imensidão de mina pertencia antes à Bolívia – ela foi conquistada pelo Chile, em 1879, durante a Guerra do Pacífico. Na ocasião, a Bolívia perdeu 120.000 km2 de território, sendo 400 km de costa, o que incluía portos, baías, etc. – enfim, o acesso soberano ao Pacífico.

Aquela mina me ensinou duas coisas. Uma foi o porquê do colorido deslumbrante daquele deserto! Já falei nos azuis, nos roxos, nos cremes, nos rosas, nos vermelhos. Agora entendia por quê. Aquele deserto era puro minério, e as suas cores fantasticamente distribuídas representavam os minérios que estavam no solo. O que tudo de minério não haveria ali? Que manancial quase que inesgotável de riqueza mineral que o mundo possuía ali nessa parte da América do Sul? Era uma coisa de louco, uma coisa para fazer pensar, e o pensamento levava logo ao sangrento golpe de 11 de Setembro de 1973, que permitira aos Estados Unidos apossar-se do Chile já naquela altura. Para quem não conhece a História, vou tentar resumi-la:

Lá nos idos de 1973 governava o Chile o presidente Salvador Allende, legitimamente eleito pelo voto popular, e com simpatias socialistas, disposto a fazer diversas reformas sociais no país. Reformas sociais significavam diminuições de lucro ao Grande Capital, e o Grande Irmão do Norte[1] não podia permitir uma coisa assim. Como o povo chileno estava com Salvador Allende, a coisa tinha que ser drástica, e o foi: a capital chilena foi tomada pelo inimigo, e o palácio do governo foi bombardeado até que morresse o presidente. Um presidente-títere, que ainda está por aí a incomodar, chamado Pinochet, foi colocado no lugar dele, e férrea e sangrenta ditadura tomou conta do Chile por muitíssimos anos. Há episódios tão vergonhosos acontecidos na ocasião que são manchas na História da Humanidade, como os 40.000 prisioneiros que o Grande Irmão do Norte juntou no Estádio Nacional do Chile, dos quais boa parte foi sumariamente fuzilado, além das torturas e de outras coisas como o assassinato do grande cantor e compositor Víctor Jara, que além de muitas outras torturas, teve, inclusive, as mãos quebradas, para que não pudesse mais compor, tendo, em seguida, sido fuzilado, perfurado por 44 balas, e seu corpo abandonado num beco qualquer, onde acabou sendo reconhecido por populares. E tudo isso bem aí do nosso ladinho, e a gente não ficou sabendo da maior parte, porque também nós estávamos nas mãos de uma Ditadura. Não pensem vocês que a invasão do Iraque é o primeiro grande feito guerreiro dos donos do Capital![2]

O interessante é que o povo daqui tem uma grande fascinação pelo Chile, e outro dia ainda almocei com um professor que me falou sobre como o Chile está bem economicamente, hoje. Disse a ele que não fora isso que eu vira, mas ele não me acreditou – como iria ele duvidar da comprida propaganda de três décadas que a nossa mídia corrompida faz sobre aquele país que deixou de ser livre tão sangrentamente já em 1973? Penso que os ricos do Chile estão bem economicamente, mas a vida da gente pobre é bem pobre, como pude comprovar mais adiante, nos lugares seguintes que passaríamos. Não se pode tomar São Pedro do Atacama como modelo, pois aquela é uma irrealidade turística, uma vitrine da História – se bem que, imagino, se tivesse olhado com um pouco mais de atenção, teria encontrado favelas lá nos esconsos dos sítios arqueológicos, inclusive. Como pode o Capitalismo viver sem escravos? Não pode, ele não sobrevive.

Pois então o Chile foi dominado pelo Grande Irmão do Norte em 1973, e o títere Pinochet deixou que fizessem o que quisessem com o país dos chilenos. Hoje temos um Chile exportador de matéria-prima, como podíamos ver ali naquela mina enorme a céu aberto, um Chile praticamente sem indústrias e com uma vida bastante difícil. Garantido está, porém, o fluxo da abundantíssima  matéria-prima do seu solo, das encostas da sua cordilheira e do seu imenso mar, para que os países ricos do mundo possam viver com o mínimo de dificuldades. E o povo chileno? Bem, o povo chileno, como todos os povos pobres, sobrevive do jeito que dá.[3]

 

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Levamos muito tempo atravessando aquela imensa mina de cobre, até que a faixa de asfalto foi-se afastando dela e continuou seguindo num maravilhoso e colorido mundo de suaves colinas. Foi uma ou duas horas depois o seu Chico que bradou, dentro do vento:

–          Dona Urda, em alguma das próximas subidas vai aparecer, lá embaixo, a cidade de Tocopilla!

 

 

[1] Sugiro que leiam o livro de George Orwel, chamado “1984” – (Nota da autora)

[2] Enquanto termino de revisar estas linhas, em junho de 2006, acaba de ser identificado o torturador e assassino de Víctor Jara. Era um então tenente do exército que tinha a alcunha  de “O Príncipe”, e se chama Edwin Dimter Bianchi. A identificação deu-se há cerca de um mês, após ele ter ficado mais de 30 anos impune. Após a instauração da ditadura Chilena, ele seguiu para o Panamá, para um “Curso de Aperfeiçoamento” na Escola das Américas, controlada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos  (leia-se: cursos para aperfeiçoar métodos de tortura). O assassino trabalha hoje no Ministério do Trabalho chileno, como chefe de departamento, e nunca sofreu nenhuma sanção. É bastante revoltante conhecer maiores detalhes da vida desse homem.

[3] Em maio de 2006 estive numa localidade chamada Rio Rosina, interior do município de Rio dos Cedros/SC. Lá funciona um polo confeccionador de móveis e objetos de vime. O vime chega lá em carregados caminhões, vindo do Chile. É tão grande a realidade de exportação de matéria prima, no Chile, que sequer vime já não se tece mais lá. E o nosso povo continua acreditando que o Chile é um país que está muito bem.

 

                                                                      Urda Alice Klueger

                    Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

O Natal de antigamente: velho e sempre novo

Venho de lá de trás, dos anos 40 do século passado, num tempo em que Papai Noel ainda não havia chegado de trenó. Nas nossas colônias italianas, alemães e polonesas, só se conhecia o Menino Jesus. Eram tempos de fé ingênua e profunda que informava todos os detalhes da vida. Para nós crianças, o Natal era culminância do ano, preparado e ansiado. Finalmente vinha o Menino Jesus com sua mulinha (musseta em italiano) para nos trazer presentes.

A região era de pinheirais a perder de vista e era fácil encontrar um belo pinheirinho.  Este era enfeitado com os materiais rudimentares daquela região ainda em construção. Utilizavam-se papel colorido, celofã e pinturas que nós mesmos fazíamos na escola. A mãe fazia pão de mel com distintas figuras, humanas e de bichinhos, que eram dependuradas nos galhos do pinheirinho. No topo havia sempre uma estrela grande  revestida de papéis vermelhos.

Em baixo, ao redor do pinheirinho, montávamos o presépio, feito de recortes de papel que vinham numa revista que meu pai, mestre-escola, assinava. Ai estava o Bom José, Maria, toda devota, os reis magos, os pastores, as ovelhinhas, o boi e o asno, alguns cachorros, os Anjos cantores que dependurávamos nos galhos de baixo. E naturalmente, no centro, o Menino Jesus, que, vendo-o quase nu, imaginávamos, tiritando de frio, e nos enchíamos de compaixão.

Vivíamos o tempo glorioso do mito. O mito traduz melhor a verdade que a pura e simples descrição histórica. Como falar de um Deus que se fez criança, do mistério do ser humano, de sua salvação, do bem e do mal senão contando histórias, projetando mitos que nos revelam o sentido profundo do eventos? Os relatos do nascimento de Jesus contidos nos evangelhos, contem elementos históricos, mas para enfatizar seu significado religioso, vem revestidos de linguagem mitológica e simbólica. Para nós crianças tudo isso eram verdades que assumíamos com entusiasmo.

Mesmo antes de se introduzir o décimo terceiro salário, os professores ganhavam um provento extra de Natal. Meu pai gastava todo este dinheiro para comprar presentes aos 11 filhos. E eram presentes que vinham de longe e todos instrutivos: baralho com os nomes dos principais músicos, dos pintores célebres cujos nomes custávamos de pronunciar e riamos de suas barbas ou de seu nariz ou de qualquer outra singularidade. Um presente fez fortuna: uma caixa com materiais para construir uma casa ou um castelo. Nós, os mais velhos, começamos a participar da modernidade: ganhávamos um jipe ou um carrinho que se moviam dando corda, ou um roda que girando lançava faíscas e outros semelhantes.

Para não haver brigas debaixo de cada presente vinha o nome do filho e da filha. E depois, começavam as negociações e as trocas. A prova infalível de que o Menino Jesus de fato passou lá em casa era o desaparecimento dos feixes de grama fresca. Corríamos para verificá-lo. E de fato, a musetta havia comido tudo.

Hoje vivemos os tempos da razão e da desmitologização. Mas isso vale somente para nós adultos. As crianças, mesmo com o Papai Noel e não mais com o Menino Jesus, vivem o mundo encantando do sonho. O bom velhinho traz presentes e dá bons conselhos. Como tenho barba branca, não há criança que passe por mim que não me chame de Papai Noel. Explico-lhes que sou apenas o irmão do Papai Noel que vem para observar se as crianças fazem tudo direitinho. Depois conto tudo ao Papai Noel para ganharem um bom presente. Mesmo assim muitos duvidam. Se aproximam, apalpam minha barba e dizem: de fato o Sr. é o Papa Noel mesmo. Sou uma pessoa como qualquer outra, mas o mito me faz ser Papai Noel de verdade.

Se nós adultos, filhos da crítica e desmitologização, não conseguimos mais nos encantar, permitamos que nossos filhos e filhas se encantem e gozem o reino mágico da fantasia. Sua existência será repleta se sentido e de alegria. O que queremos mais para o Natal senão esses dons preciosos que Jesus quis também trazer a este mundo?

 

Leonardo Boff é autor de O Sol da Esperança: Natal, histórias, poesias e símbolos, Editora Mar de Idéias, Rio de Janeiro 2007.

 

UMA HISTÓRIA DE NATAL DE ANTIGAMENTE

Harry Wiese*

A noite estava calma e silenciosa como o luar. Nenhum ruído, nenhum grito de animal silvestre, nenhuma voz humana. Nem o vento conseguia balançar as folhas das grandes árvores. As nuvens que circundavam o astro maior da noite formaram figuras fantásticas e brilhantes e devido à inércia natural teimavam em perpetuar-se. Maravilhoso!

No pequeno lago, no meio da floresta, o luar prateado refletia sua magnificência e esplendor. Se um andarilho caminhasse ali e se tivesse o privilégio de apreciar as profundezas das águas, com certeza, veria a imagem santa do Salvador refletida e perceberia a presença da mão divina palpar o mundo tal qual o afago da mão de uma criança no rosto de sua mãe.

Havia uma pequena estrada que passava rente ao lago e nela quase ninguém se locomovia. À direita, havia a mata virgem que seguia até o olhar se perder. No outro lado, apontava a Serra Mirador, paredão verde-azulado de dia e, escuro e amedrontador à noite.

Neste lugar fantástico, já chegaram os homens com seus sonhos. As casas ficavam longe uma da outra. O local no seu todo consistia de mata virgem em abundância e, aqui e ali, o início de uma jornada: a casa rústica, a rancharia, alguns animais, algumas plantações, muitos sonhos, pouco conforto, nenhum lazer e muito trabalho. Também, havia a fé e a saudade. A fé em Deus mantinha-os unidos e a saudade era um sentimento triste e bonito ao mesmo tempo. Nunca lamentaram sua sina. O trabalho fê-los homens e mulheres de mãos calejadas, músculos fortes e rostos e corpos queimados pelo sol.

Numa clareira, Heinrich construíra seu lar: uma choupana de resistência fraca, mas de estilo esmerado e de beleza bem feita. Era uma casa rústica, de planta improvisada de engenheiro sem papel.

Naquela noite calma e silenciosa como o luar, eis que daquela cabana, um afinadíssimo coro quebrou o silêncio. De início baixinho como a brisa que bate no rosto dos transeuntes solitários no caminho da beira-mata, depois mais forte até se tornarem mais nítidas todas as notas das canções até a maior distância da região. “Ein feste Burg ist unser Gott”, “Ihr Kinderlein kommet”, Es ist ein Ros’entsprungen“ eram as canções entoadas por Heinrich, sua esposa Marichen e seus três filhos: Wilhelm, Karin e Erwin.

À medida que as melodias ficaram nítidas e abrangentes, a natureza, antes calma e silenciosa como o luar, participou ativamente do espetáculo. Os galos cantaram, o gado mugiu, o vento soprou entre as árvores, os macacos pulavam de galho em galho, os sapos fizeram algazarra no lago e o latido dos cães, sempre tão temidos, não provocaram desespero nos animais silvestres. Em pouco tempo, toda a região estava tomada pela simbiose natalina, firme e convicta, poética e santa. A fé cristã conseguira penetrar no coração de um novo mundo.

Depois das canções, Heinrich iniciou o ritual da distribuição dos presentes. Presenteou Marichen com um lenço de seda e ela retribuiu com um chapéu de feltro, comprados em Hammonia, colônia alemã recém fundada. As crianças entreolharam-se. A aflição aumentara. A árvore, uma araucária, maravilhosamente enfeitada, de acordo com a tradição, era o centro do lar, o centro do mundo. A luz das velas de cera de abelhas silvestres, fabricada por eles mesmos, era igual à dos natais na Alemanha. As faces das crianças pareciam pálidas em função do reflexo da luz. Quem as observasse, ali, tão compenetradas com o pensamento no menino Jesus, poderia concluir que se tratasse de anjos em plena selva de Hammonia.

─ Erwin ─ disse o pai ─ este presente o Weihnachstmann trouxe para ti.

Erwin era o caçula e tinha três anos apenas. O presente era muito mais belo que esperava. Uma junta de bois, espetacularmente esculpida em madeira e presa em quatro rodas para que a pudesse puxar pela casa e pelo pequeno jardim, que em novembro já começara a florir, estava em suas mãos. Heinrich, o pai, emocionou-se por causa da alegria do menino e por causa de sua pequena obra de arte, esculpida, à noite, à luz de lamparinas de querosene, depois que as crianças foram dormir.

─ Karin ─ disse a mãe ─ abre o pacote! É teu!

Karin era uma menina de olhos azuis e cabelos cumpridos. Em outubro havia completado sete anos de idade. O presente era lindo como a menina. Uma boneca de pano, caprichosamente feita, estava em seus braços. Marichen a fez nas horas de folga, domingos à tarde, quando se trancava no quarto, depois das árduas tarefas da semana.

─ Vem cá Wilhelm ─ voltou a pedir Heinrich, referindo-se ao filho mais velho ─ ainda és um menino, mas já pensas como gente grande. Pega o teu presente!

O rosto do menino ficou radiante. Não imagina que aquele presente viesse tão cedo. Antes de abrir o embrulho, abraçou o pai, a mãe, o irmão e a irmã.

Que desejo pode ter um menino de dez anos em plena mata virgem? O que pôde provocar tanta alegria? Mas o que é o Natal senão alegria, fé, amor e união? E, realmente, tudo era alegria, na casa, fora dela, na mata, no lago e no céu com a Lua amando o mundo.

Mais tarde, quando Marichen e as crianças já estavam dormindo, pai e filho, como dois adultos, sentados na pequena varanda conversavam animadamente sobre o futuro. Sim, como dois adultos, porque Wilhelm acabara de adquirir sua maioridade já aos dez anos, de acordo com a lei da selva. Agora era um homem com sonhos e ferramentas.

─ Papai, depois das festas vou derrubar o mato rente ao pasto dos animais e plantar a minha roça!

Acariciou o machado longamente e na condição de menino-homem, pensou que o Natal é a melhor coisa do mundo!

 

* Harry Wiese reside em Ibirama – SC. É autor de vários livros, dentre eles A sétima caverna, romance premiado pela Academia Catarinense de Letras.

 

 

 

Modernidades

Criei-me no tempo do rádio, grandes rádios com o interior cheio de válvulas que apagavam e acendiam, que precisavam “esquentar”, e que, no meio de muita estática, traziam até nossas casas a Rádio Clube de Blumenau e a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, entre outras. Os rádios eram enormes, contidos dentro de grandes caixas de decoração rebuscada, e, apesar de serem popularmente chamados de “caixão-de-abelha”, eram, sem dúvida, a principal peça que compunha a sala-de-visitas de uma casa.

Lá por volta de 1960, porém, os rádios começaram a mudar. Foi uma  verdadeira revolução nas comunicações e nos hábitos das pessoas, só comparável, creio, ao surgimento do telefone celular, 30 anos depois. O que aconteceu foi que surgiu o rádio a pilha.

Ter um rádio a pilha, na época, era questão de status, bem como foi o telefone celular nos seus primeiros dias. “Gente bem” tinha, obrigatoriamente, de andar com o seu rádio a pilha, quanto menor, mais chique, radinhos a pilha dentro de capinhas de couro marrom cheia de furinhos, com alças de couro que permitiam que fossem usados pendurados ao ombro. Era o começo dos tempos do consumismo no Brasil, e ter um rádio a pilha passou a ser ponto de honra, bem como aconteceu com o telefone celular nos seus primeiros tempos.

Muita coisa aconteceu no alvorecer da era dos rádios a pilha. Ouviam-se, na época, os jogos de futebol nos velhos rádios cheios de estática. Ou ouvia-se no rádio,   ou ia-se ao estádio. Como se ter certeza se o locutor do futebol estava transmitindo o jogo fielmente? Com o rádio a pilha, foi possível conferir. E quem tinha um rádio a pilha, ia ao estádio com ele, e ouvia e via o jogo ao mesmo tempo, e depois podia apontar todas as falhas dos locutores. Esses conferentes viraram os donos da razão, com todo um círculo de pessoas a  ouvi-los, boquiabertas por terem de desacreditar nos seus locutores de confiança.

O Brasil tinha sido campeão do mundo em futebol em 1958 – coincidindo com a chegada do rádio a pilha, esteve em Blumenau, para jogar com o Olímpico, nada mais nada menos que o Santos de Pelé. Com Pelé e tudo. Pelé, na época, só perdia para Deus em popularidade, e creio que isto não mudou muito ao longo de quase quatro décadas. Ver Pelé jogar no nosso campinho sujeito a enchentes tornou-se quase questão de vida ou morte para os blumenauenses de antanho e, quem pôde, foi ver o jogo. O Santos surrou o Olímpico por 8×0.  E na manhã seguinte a fofoca corria solta na nossa rua. O problema não era ter perdido de goleada do Santos, claro que não, era quase uma honra perder-se por muitos gols para o time de Pelé. A grande discussão era a respeito dos donos dos rádios a pilha, que diziam que tinham estado no campo vendo o jogo, ao mesmo tempo em que ouviam a transmissão radiofônica nos seus radinhos, e que apontavam os muitos erros dos locutores esportivos emocionados com a presença de Pelé.

Até hoje não sei qual foi a verdade, mas alguns dos nossos vizinhos foram taxados de mentirosos. Dizia-se que fulano e sicrano tinham ficado era bem em casa, ouvindo o jogo pelo rádio, e que só para “aparecer”, para deixarem bem claro que possuíam rádios a pilha, tinham inventado aquela história de que tinham estado no campo conferindo o trabalho dos repórteres. Penso, hoje, que provavelmente toda essa encrenca derivou da inveja de moradores que morriam de vontade de ter ido ver Pelé e não o puderam fazer, coisa mesquinha em qualquer dos casos.

Nos seus  primórdios, o rádio da pilha movimentou energias e opiniões. Mais tarde, quando já estava popular, virou companheiro e amigo. Meu pai deu-me um quando eu já era uma mocinha, moderno rádio com  linda capa de couro preta e longa e flexível antena embutida, sofisticado rádio com três faixas de ondas. Eu dormia e acordavam com ele, e nele ouvia os Beatles e todos os sucessos da Jovem Guarda, e nele ouvi todas as  notícias do Projeto Gemini, e, afinal, a chegada do homem a lua, em noite esquecida lá na minha adolescência. Usei aquele rádio em todos os momentos, até ele não prestar mais, e tenho certeza de que ele foi à coisa mais chocante que o meu pai podia ter me dado, depois da vida, é claro.

Essas modernidades do passado hoje são coisas sem valor, mas como alegraram e movimentaram a nossa vida na época!

Blumenau, 26 de maio de 1996.

Urda Alice Klueger