A MINA DE CHUQUICAMATA – Chile

 

    

 A MINA DE CHUQUICAMATA Chile

(Excertos do livro “Viagem ao Umbigo do Mundo”, publicado em 2006)                                  

 

Jaka me avisara sobre a grande mina de cobre pela qual passaríamos durante a tarde, e em poucas horas a atingíamos: nem na África do Sul, que é um país coalhado de minas ao longo das rodovias, vira eu coisa assim!

A mina de Chuquicamata estendia-se pela beira da rodovia por quilômetros e quilômetros, e o cobre de que era formada tinha a profundidade de 600 metros, sem contar que também se erguia em altas montanhas. Estava sendo explorada há milhares de anos, claro – de onde tiravam o cobre dos seus objetos os antigos moradores de São Pedro de Atacama? Com certeza, porém,  no passado, sua exploração fora uma coisa artesanal – nos modernos tempos do Capitalismo, porém, desenvolveram-se máquinas monstruosas e outras coisas para sua exploração. Tratores que pareciam lunares, com seus pneus gigantescos, entravam em buracos imensos e traziam à superfície enormes quantidades de minério, que era despejado dentro de vagões de trem ali alinhados como se se tratasse de um trenzinho de brinquedo. Tudo ali era cobre; bastava-se que se escavasse o chão para se juntar o minério em quantidades incomensuráveis, pois incomensuráveis eram as reservas.

Há que se lembrar que se estava em pleno Deserto do Atacama, que naquela região não tinha o menor sinal de fertilidade – depois que saíramos de São Pedro de Atacama, onde havia alguma coisa de verde, por se tratar de um oásis, nada mais se via de vivo, nem plantas, nem animais, nem mesmo um cacto, um mosquito – era tudo pura aridez colorida. Uma cidade inteira de prédios de vidros hermeticamente fechados – Calama –  fora construída ali junto da mina, decerto para abrigar os mineiros que estavam tão distantes de qualquer outro lugar, e havia a mina, os grandes tratores, o trem, e pequenas formiguinhas que eram os seres humanos, diante da escala imensa das outras coisas – e só. Não sei como aqueles seres humanos conseguiam sobreviver no meio daquela aridez colorida. Tenho comigo que revi aquela mina poucos meses depois  no cinema, no filme “Viagens de Motocicleta”, mas não tenho certeza. Diante do contexto do filme, porém, não há por que não ser a mesma mina. Penso que dificilmente no mundo haverá outra em condições tão inóspitas.

Também há que se acrescentar aqui que aquela imensidão de mina pertencia antes à Bolívia – ela foi conquistada pelo Chile, em 1879, durante a Guerra do Pacífico. Na ocasião, a Bolívia perdeu 120.000 km2 de território, sendo 400 km de costa, o que incluía portos, baías, etc. – enfim, o acesso soberano ao Pacífico.

Aquela mina me ensinou duas coisas. Uma foi o porquê do colorido deslumbrante daquele deserto! Já falei nos azuis, nos roxos, nos cremes, nos rosas, nos vermelhos. Agora entendia por quê. Aquele deserto era puro minério, e as suas cores fantasticamente distribuídas representavam os minérios que estavam no solo. O que tudo de minério não haveria ali? Que manancial quase que inesgotável de riqueza mineral que o mundo possuía ali nessa parte da América do Sul? Era uma coisa de louco, uma coisa para fazer pensar, e o pensamento levava logo ao sangrento golpe de 11 de Setembro de 1973, que permitira aos Estados Unidos apossar-se do Chile já naquela altura. Para quem não conhece a História, vou tentar resumi-la:

Lá nos idos de 1973 governava o Chile o presidente Salvador Allende, legitimamente eleito pelo voto popular, e com simpatias socialistas, disposto a fazer diversas reformas sociais no país. Reformas sociais significavam diminuições de lucro ao Grande Capital, e o Grande Irmão do Norte[1] não podia permitir uma coisa assim. Como o povo chileno estava com Salvador Allende, a coisa tinha que ser drástica, e o foi: a capital chilena foi tomada pelo inimigo, e o palácio do governo foi bombardeado até que morresse o presidente. Um presidente-títere, que ainda está por aí a incomodar, chamado Pinochet, foi colocado no lugar dele, e férrea e sangrenta ditadura tomou conta do Chile por muitíssimos anos. Há episódios tão vergonhosos acontecidos na ocasião que são manchas na História da Humanidade, como os 40.000 prisioneiros que o Grande Irmão do Norte juntou no Estádio Nacional do Chile, dos quais boa parte foi sumariamente fuzilado, além das torturas e de outras coisas como o assassinato do grande cantor e compositor Víctor Jara, que além de muitas outras torturas, teve, inclusive, as mãos quebradas, para que não pudesse mais compor, tendo, em seguida, sido fuzilado, perfurado por 44 balas, e seu corpo abandonado num beco qualquer, onde acabou sendo reconhecido por populares. E tudo isso bem aí do nosso ladinho, e a gente não ficou sabendo da maior parte, porque também nós estávamos nas mãos de uma Ditadura. Não pensem vocês que a invasão do Iraque é o primeiro grande feito guerreiro dos donos do Capital![2]

O interessante é que o povo daqui tem uma grande fascinação pelo Chile, e outro dia ainda almocei com um professor que me falou sobre como o Chile está bem economicamente, hoje. Disse a ele que não fora isso que eu vira, mas ele não me acreditou – como iria ele duvidar da comprida propaganda de três décadas que a nossa mídia corrompida faz sobre aquele país que deixou de ser livre tão sangrentamente já em 1973? Penso que os ricos do Chile estão bem economicamente, mas a vida da gente pobre é bem pobre, como pude comprovar mais adiante, nos lugares seguintes que passaríamos. Não se pode tomar São Pedro do Atacama como modelo, pois aquela é uma irrealidade turística, uma vitrine da História – se bem que, imagino, se tivesse olhado com um pouco mais de atenção, teria encontrado favelas lá nos esconsos dos sítios arqueológicos, inclusive. Como pode o Capitalismo viver sem escravos? Não pode, ele não sobrevive.

Pois então o Chile foi dominado pelo Grande Irmão do Norte em 1973, e o títere Pinochet deixou que fizessem o que quisessem com o país dos chilenos. Hoje temos um Chile exportador de matéria-prima, como podíamos ver ali naquela mina enorme a céu aberto, um Chile praticamente sem indústrias e com uma vida bastante difícil. Garantido está, porém, o fluxo da abundantíssima  matéria-prima do seu solo, das encostas da sua cordilheira e do seu imenso mar, para que os países ricos do mundo possam viver com o mínimo de dificuldades. E o povo chileno? Bem, o povo chileno, como todos os povos pobres, sobrevive do jeito que dá.[3]

 

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Levamos muito tempo atravessando aquela imensa mina de cobre, até que a faixa de asfalto foi-se afastando dela e continuou seguindo num maravilhoso e colorido mundo de suaves colinas. Foi uma ou duas horas depois o seu Chico que bradou, dentro do vento:

–          Dona Urda, em alguma das próximas subidas vai aparecer, lá embaixo, a cidade de Tocopilla!

 

 

[1] Sugiro que leiam o livro de George Orwel, chamado “1984” – (Nota da autora)

[2] Enquanto termino de revisar estas linhas, em junho de 2006, acaba de ser identificado o torturador e assassino de Víctor Jara. Era um então tenente do exército que tinha a alcunha  de “O Príncipe”, e se chama Edwin Dimter Bianchi. A identificação deu-se há cerca de um mês, após ele ter ficado mais de 30 anos impune. Após a instauração da ditadura Chilena, ele seguiu para o Panamá, para um “Curso de Aperfeiçoamento” na Escola das Américas, controlada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos  (leia-se: cursos para aperfeiçoar métodos de tortura). O assassino trabalha hoje no Ministério do Trabalho chileno, como chefe de departamento, e nunca sofreu nenhuma sanção. É bastante revoltante conhecer maiores detalhes da vida desse homem.

[3] Em maio de 2006 estive numa localidade chamada Rio Rosina, interior do município de Rio dos Cedros/SC. Lá funciona um polo confeccionador de móveis e objetos de vime. O vime chega lá em carregados caminhões, vindo do Chile. É tão grande a realidade de exportação de matéria prima, no Chile, que sequer vime já não se tece mais lá. E o nosso povo continua acreditando que o Chile é um país que está muito bem.

 

                                                                      Urda Alice Klueger

                    Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

3 pensamentos em “A MINA DE CHUQUICAMATA – Chile”

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